Perdida no Espaço? | Viajando sobre a temática espacial

A temática espacial não pára de expandir em popularidade e em títulos à disposição das boardgamers! É inegavelmente fascinante imaginar cenários, viagens e todo tipo de experiências em outros mundos, algo ainda tão colossal para nós, pequenos seres nesse universão.

superfície de marte desenhada em tabuleiro
Vista de Marte, assinada por Vital Lacerda. A arte do jogo é de Ian O’Toole

Ao mesmo tempo, às vezes me pergunto o quanto a sede por “desbravar” novos territórios e – possivelmente – encontrar outros seres, outras civilizações, pode estar carregando de uma antiga mentalidade expansionista bastante condenável, a mesma que levou às narrativas romantizadas sobre expedições colonialistas. Em outras palavras, será que os anseios dos colonizadores do século XVI eram muito diferentes dos interesses representados por corporações e governos que investem em perseguir e explorar, a qualquer custo, novas fontes de riquezas?

Ba_colou ao lado de estátua do personagem Darth Vader, feita de Lego
Eu sei que é difícil, mas reveja seus conceitos, moço!

Com isso tudo em mente, me sinto muito perdida no espaço. O que, afinal, eu posso ter a ver com a história de astronautas em Marte – ou extraterrestres e(m) seus planetas de origem?

Como, em geral, o padrão dominante ainda transita no curto caminho criativo entre guerras e empreendimentos desenvolvimentistas, para mim fica mais fácil entrar na história quando eu mesma sou “do time” dos ETs, e se as disputas se dão de múltiplos pontos de partida, por múltiplas motivações. Em “Projeto Gaia”, diria que é bem por aí. A guerra dos mundos se trava entre sociedades fictícias, em condições balanceadas, disputando prosperidade segundo critérios de valor que mudam período a período. O jogo é denso, envolvente e estimulante, como se propõem a ser as combinações da temática a mecânicas que comuns aos chamados eurogames.

Ba_colou sorri ao lado de tabuleiro do jogo Projeto Gaia
Baixa definição, altas aventuras! Jogando Projeto Gaia antes de ser modinha. #madrobots

Um exemplo que já muito hypou nesse sentido é “Terraforming Mars”, acompanhado de uma série de expansões, acessórios e complementos para o que se tornou um verdadeiro nicho dentro do nicho. Dinâmico, TfM mistura ansiedade com estratégia, e é cheio de “coisas pra fazer”, o que leva a uma certa curva de aprendizagem que deixa um gostinho de quero-rejogar. Também pode ser considerado um eurogame, muito diferente, no entanto, de tipões mais sóbrios como o mais recente “On Mars”.

Componentes do jogo Terraforming Mars
O famoso Terraforming Mars, publicado no Brasil pela editora Meeple BR

De poucas palavras e sem plástico, a experiência de “On Mars” me encantou assustadoramente. Lacerda sabe usar a estética a favor de seu design de jogo, e dessa vez o fez como uma estrela. Elegante, faz parecer que investigações científicas e a observação do espaço são o que está em jogo. De fato? Apenas acelerar a máquina da industrialização de um território em que não se pode sequer tomar um ar – se bem que isso pode soar algo familiar à Terra nesses tempos…

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Até jogos menores – nesse caso, literalmente -, como o ligeiro “Tiny Epic Galaxies”, tratam de foguetes em exercício bélico, expansionista ou imperialista, ainda que sob experiências lúdicas que vale a pena conhecer até mesmo para estudar esses padrões – até porque, jogar não é só sobre “diversão”, pasmem!

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Por ora, me consola o pensamento de que viajar não precisa ser o mesmo que explorar, e, se a espaçonauta fosse eu, estaria a viagem para conhecer, trocar, estabelecer relação com outros contextos. De todo modo, para quase a totalidade de nós, gamers de plantão, o espaço sideral ainda habita apenas o campo da fantasia, e espero que possamos produzir histórias construtivas sobre o que é que, afinal, nossas personagens têm a fazer indo tão longe.

Que tal um jogo em que a expedição terráquea se depara com uma sociedade jupiteriana e ambas tenham como desafio decifrar mensagens, se comunicar e criar formas de viver sem esgotar os escassos recursos disponíveis? Ou, ainda, um jogo que conte a história de astronautas que investigam como proteger a Terra de meteoros ou da explosão fatal do Sol? Se a imaginação vai ao infinito e além, que haja espaço para ideias novas!

Enquanto não desenvolvo um jogão desses eu mesma, deixo na mesa o convite pra imaginarmos além da órbita comum. 🙂

Trismegistus – The Ultimate Formula

  • 90 – 120 minutos
  • 14+
  • 1-4 jogadores
  • Peso (complexidade) segundo BGG- 3.97

Trismegistus – the ultimate formula, da editora Board & Dice, foi um jogo que adquiri na Essen Spiel 2019 e que me chamou bastante a atenção pelo interesse dos frequentadores da feira – estande grande, com mesas cheias, pessoas esperando para jogar, clima frenético! Um lançamento de grande destaque, mas não é para menos, o jogo é assinado pelos italianos Federico Pierlorenzi e Daniele Tascini e é este último que traz notoriedade ao jogo, pois carrega muitos prêmios na bagagem como criador de As viagens de Marco Polo, Teotihuacan,  Tzolk’in: O Calendário Maia e muitos outros. Algumas fotos da Essen Spiel 2019:

Se você está procurando um euro verdadeiramente pesado, com arte linda, muitos componentes e tema criativo, esse é seu próximo jogo. Trismegistus é uma referência ao filósofo egípcio Hermes Trismegistus, cuja enorme e variada produção leva também a crer que possa ser uma figura mítica, sendo identificado como deus Troth. É desse personagem que herdamos o termo hermético para designar o que é de difícil entendimento (possivelmente por isso, levei uma hora só para entender o manual), além de se referir às ciências ocultas, à alquimia. Neste jogo, você se torna uma alquimista, cientista, tentando realizar seus experimentos químicos e publicá-los.

O jogo conta com um enorme tabuleiro central e tabuleiros individuais – você vai precisar de uma grande mesa se for jogar em 4 pessoas.

Cada pessoa na mesa escolhe um alquimista para representar, posiciona as peças no seu tabuleiro individual – há diferenças entre os alquimistas, mas todos são perfeitamente equilibrados – não consigo pensar em um que seja superior aos demais. Faltou uma mulher alquimista no jogo, afinal, fama de bruxa a gente tem há muito tempo para desconsiderar…

Duração da partida

A partida conta com 3 rodadas, marcadas pelas peças de artefatos I, II e III – em cada uma dessas rodadas, você terá direito a três dados que permitem múltiplas ações. Então, não será um jogo rápido – na caixa diz entre 90 e 120 minutos, mas em todas as vezes que joguei, não durou menos de 120 minutos, mesmo em duas pessoas experientes.

A primeira mecânica do jogo é a locação de dados, são 6 dados pretos, 5 brancos e 5 vermelhos – com símbolos marcados em baixo relevo representando chumbo, cobre, estanho, mercúrio, ferro e o infinito, que será usado como coringa.

Os dados são rolados juntos, posicionados no centro do tabuleiro, separados por seus símbolos. Cada jogador pegará um dado e o posicionará em seu tabuleiro individual, na trilha de 1 a 5 – esse número é definido de acordo com a quantidade de dados iguais no tabuleiro central – então, é vantajoso escolher o dado que estiver em maior quantidade, por outro lado, é a cor do dado que define se você poderá transformar uma matéria prima na trilha, pois as trilhas variam em cores, como os dados – vermelho, preto e branco, já o símbolo do dado é  que vai definir quais cartas de experimento você pode comprar do tabuleiro central, qual elemento você pode adicionar ao seu tabuleiro individual e qual essência você pode adquirir. As essências usadas para refinar matérias primas te fazem subir na trilha de elementos (fogo, ar, água e terra), o que além de trazer pontos no final, te permitem durante o jogo completar seus experimentos.

No seu tabuleiro individual haverá uma trilha, na qual você transformará matérias-primas em materiais refinados que são demandas para você completar seus experimentos. Conforme você vai publicando, os próximos experimentos do mesmo elemento vão tendo seus custos reduzidos (reduzem a no máximo 2 matérias-primas a menos). Cada experimento baixado vai valer ponto no final, de acordo com a pontuação marcada no canto inferior direito da carta e pode se potencializar, caso atenda os requisitos da sua carta de publicação.

Cartas de publicação

No início do jogo, cada pessoa recebe duas cartas de publicação para escolher uma e mantê-la oculta consigo até o final da partida. É imprescindível que você use essa publicação para potencializar sua pontuação ou dificilmente vai conseguir pontuar bem. Durante a partida, há maneiras de adquirir mais publicações, mas é bem difícil pontuar bem em todas, pois o jogo é apertado em recursos.

Nuances do jogo

Reação

Queria um dado preto, mas seu adversário pegou o último? Peças de reação, simbolizadas por um raio, permitem “reagir” ao dado de um adversário, assim, você pode escolher se usa a cor ou o símbolo de seu adversário durante a vez dele para fazer uma ação – ótima maneira de adicionar ações a sua jogada e poder usar um dado diferente daquele que precisou escolher. Você recebe duas peças de reação no início da partida e pode adquirir mais durante o jogo, mas cada peça de reação poderá ser usada apenas uma vez em toda a rodada – então, use com sabedoria.

 

Artefatos

Usando seu dado, você poderá adquirir as peças de artefatos e posicioná-las na trilha em que transforma materiais, no local de sua escolha, e 1x durante a rodada, você poderá usar o bônus do artefato quando passar pelo local do artefato para transformar os materiais. É importante usar o máximo de vezes que conseguir para se beneficiar dos recursos, que com certeza serão necessários.

Complexidade

O BGG pontuou o jogo com grau de complexidade 3.97, é um euro pesado, com diversos nuances e detalhes a considerar; é apertado em recursos e a alocação de dados está longe de ser simples.

Arte

Rica em detalhes e sofisticação, a arte, da Paulina Wach é um show nada à parte, pois está bem integrada ao tema do jogo e complementa a experiência! A frente da caixa traz a figura do alquimista realizando um experimento, estudando com seu livro (referência à ciência), mas ele tem uma aparência que sutilmente remete à bruxaria e o gato preto, gente, que sacada! O gato preto – figura tão controversa em diferentes culturas – mas que sempre traz uma sugestão mágica, e remete ao universo de bruxaria. A mistura de cores ao fundo da imagem da caixa é muito artística e original, Os tabuleiros são muito elaborados também, e a arte em geral, realmente nos leva para esse universo da alquimia e da ciência.

Modo Solo

Para a alegria dos quarenteners, Dávid Turczi e Nick Shaw desenvolveram o modo solo do jogo – esse modo vem na caixa base e consta no manual original.

Considerações finais

Trismegistus é um grande jogo, contém todos os elementos e até mais para agradar amantes de euro. Os componentes são bem feitos, de muita qualidade (o meu veio com uma peça a mais, mas ok, melhor pecar pelo excesso rs). Sempre que acaba uma partida, fica aquele gostinho de quero mais, passam pela cabeça táticas novas, uma forma diferente de avançar nos pontos e isso é um ótimo indício de que é um bom jogo. Recomendadíssimo!

Nossos jogos mais quarenteners até agora

Para nossa lista especial do mês resolvemos colocar os jogos que mais estamos tendo como companhia durante essa quarentena. Será que algum deles é um dos que você mais está jogando também?

Desenvolvendo o principado na Borgonha – ADRILHAMA

Durante a quarentena o jogo que mais rolou por aqui foi um clássico do Feld, o Castles of Burgundy (tanto na versão online, que descobri agora na quarentena, quanto na física).

Esse jogo é um que virou queridinho aqui em casa: nele estamos na Idade Média devemos ter o melhor principado da região da Borgonha, na França. Para isso, nós podemos construir poderosos castelos, praticar o comércio e também explorar minas de prata (e com ela, ter acesso ao mercado ilegal do tabuleiro).

Fazemos todas as ações com 2 dados que não funcionam ao mero acaso, pois as jogadoras podem manipular os mesmos, tirando um pouco do fator sorte que o dado trás. O AP (analysys paralisis, que é o tempo que cada jogadora demora para fazer uma ação) nesse caso vai depender de pessoa para pessoa, mas alerto que pode ser um pouco grande, pois durante seu turno é possível fazer vários combos de ações bacanudos.

Então, se você busca uma partida mais rápida eu recomendaria jogar com apenas 2 jogadoras, mas com 3 ou 4 as opções no mercado ficam deveras interessante. Castles of Burgundy é um jogo curinga pra quem quer passar o tempo com qualidade nesse período de isolamento social.

Skytear 1×1 – AMANDA

Na quarentena, o jogo que mais vê mesa em casa é Skytear, exatamente por ser um jogo de combate 1×1 é perfeito para jogar a 2 (meu número no isolamento social rs).

Skytear é um jogo estratégico, com cartas e miniaturas, inspirado em MOBA (multiplayer online battle arena). No início do jogo, algumas condições de vitória são sorteadas aleatoriamente, o que traz mais  diversidade para as partidas.

É um jogo com construção de baralho, o famoso deck building, e conforme sua estratégia, você escolhe quais cartas de poder irão compor o seu baralho, outro elemento que traz mais nuances ao jogo. Comecei aqui com um time basicamente de Kurumo, sempre com a Yami entre os eleitos, mas já montei meu baralho de Nupten e agora estou na fase Liothan (com heroínas: Astrida, Freyhel e Shyllavi – girl power!) combinada a Taulot (representada basicamente pelo Ixatosk) – esse baralho fez sucesso aqui em casa!

É possível jogar o Skytear pelo Tabletop Simulator – roda bem e inclusive vai rolar campeonato online. O jogo tem uma comunidade muito receptiva, com grupo de whatsapp sempre com gente disposta a ensinar o jogo para quem não conhece ou para discutir estratégias, muito legal!

Skytear é novo, foi lançado pela PVP Geeks e trazido para o Brasil pela Precisamente Jogos, que inclusive anunciou mais expansões e novidades sobre o jogo recentemente (clique aqui para saber mais).

Tash-Kalar infinito – BACOLOU

Jogo que, segundo a caixa, vai a 4, mas na prática tem cara de duelo, Tash-Kalar é dos que, com sorte, me acompanhará até a velhice. Não tanto na mecânica quanto na estética – ou, se preferir, “na vibe” -, ocupa a função de um Xadrez moderno, com o tabuleiro como arena e criaturas que combatem conforme o alcance de seu movimento característico, sobre o quadriculado em jogo. É lindo, denso, elegante, e tem sido o que mais se repete à mesa da minha quarentena.

O tom sóbrio da disputa somado à fantasia narrativa das criaturas em jogo inspira a disposição de preparar-se para um dia todo de partidas, de uma a mil, variando entre as facções que já contam com expansões diversas. Bom para equilibrar e estimular a mente afetada pelos dias sem sol.

WELCOME TO my quarantine life – NANDA

Welcome to… foi um dos que acabei comprando durante a quarentena pelo preço (que foi acessível para mim) e porque eu queria algum jogo para rabiscar. Motivos mais do que suficientes, não é mesmo?

Para alguém é que fã de euros (se pesados, ainda melhor), ele foi uma boa surpresa. Apresentou-se como um filler muito gostoso e fez sucesso com minhas parcerias de joga na quarentena. Em parte, devido à variedade de estratégias que vão surgindo a cada novo trio de cartas que são abertas, e também ao tempo de partida. Em três, dura cerca de 40 minutos. O que faz com que acabamos nunca jogando apenas uma vez. 

Por ter também cartas para usar quando você já estiver mais experiente, fez com que o jogo acabe tendo ainda mais diversificação nas estratégias. E acabamos sempre testando estratégias diferentes.

Para quem não sabe como funciona,  Welcome to.. é um jogo de Roll&Write, só que ao invés de dados, temos cartas. A cada nova rodada 3 cartas são abertas e você precisa escolher qual delas usar para, então, montar seu bairro perfeito – com casas com piscinas, parques nas ruas. E tem ainda a oportunidade de determinar qual tamanho de bloco é mais valioso no seu bairro.

Se quiser algo mais levinho, gostoso e ainda fingir ser uma excepcional arquiteta, não deixe de conhecê-lo.

Feudum a dois – PAULA

Aqui em casa, rolava um certo preconceito de tentar arriscar jogar Feudum a dois. É um dos nossos jogos preferidos, mas achávamos que ia se tornar tedioso e maçante por não haver tanta interação quanto em um grupo maior.

Na impossibilidade de jogar com azamigue durante o isolamento social, fomos obrigados a matar a saudade do nosso amado pesadão jogando a dois mesmo e… que grata surpresa!

Feudum se passa numa fantasiosa era medieval em que nós fomos banidos do reino e precisamos recuperar nossa honra por meio de uma jornada em busca de aventuras, prosperidades e conquistas. Você vai demorar algumas horas para aprender a jogar, mais ainda se for ensinar o resto da mesa, e coloca umas 3-4 horas para a jogatina de fato.

Mas vai valer a pena se a sua tara – assim como a minha – é conhecer mecânicas diferentes e intrincadas, pensar em estratégias mirabolantes, fritar os neurônios e, de quebra, praticar aquele take* that de que todo mundo gosta um pouco.

De dois, a alta interação não desaparece, mas cede um pouco de seu lugar a um charme de jogo euro, em que cada um elabora sua tática, mexe suas pecinhas e torce para que o seu plano e suas jogadas sejam melhores que as do oponente. 

E você: qual é o seu jogo mais jogado na quarentena? E nos conte também o que achou da lista. Vamos adorar saber! 🙂

Mulheres nos jogos #3

Para quem acompanha a JogaMana no instagram sabe que toda quarta-feira falamos das mulheres nos jogos de tabuleiro! Confira abaixo a terceira parte das desenvolvedoras de jogos que já rolou até agora nas nossas redes sociais.

Confira também a primeira e segunda lista para saber mais sobre as mulheres incriveis nesse mundo dos jogos analógicos.

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Anne-Marie de Witt é desenvolvedora de jogos e CEO da editora Fireside Games. Ela criou o famoso Munchkin panic (2014) e outros não tão conhecidos aqui no Brasil, tais como Bears! (2011), Bloodsuckers (2011) e The village crone (2015), sem contar as expansões desenvolvidas ao longo dos anos para esses jogos.

Bears! É um jogo de combinação de dados nas quais as jogadoras ganham pontos correndo dos ursos, atirando neles ou tentando dormir enquanto um ataque ocorre. Você ganha mais pontos ao dormir durante um ataque, mas se houverem ursos vivos no final do turno, as campistas são devoradas!

Bloodsuckers é um jogo de cartas de vampiros: você pode escolher jogar como caçadora ou vampira e o objetivo é uma batalha épica para dominar ou salvar a cidade de Blackwood.

Em The village crone, Anne explora seu fascínio pelas bruxas! Trata-se de um jogo de controle de recursos e alocação de trabalhadores no qual as jogadoras competem para serem a melhor bruxa do vilarejo, conjurando feitiços e coletando ingredientes pelo mapa.

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Suzanne Goldberg é coautora do jogo Sherlock Holmes consulting detective e suas expansões. O jogo é super premiado: ganhou o Spiel des Jahres em 1985, em 1982 foi premiado melhor jogo de tabuleiro de fantasia pelo Charles S. Roberts e em 2012 conquistou o prêmio francês “as d’Or” de melhor jogo do ano do Júri.

Nesse jogo, teremos um mistério para resolver, e cabe a jogadora rastrear as linhas de evidência pelas ruas e mansões da Londres do século XIX. Durante a partida deveremos entrevistar suspeitos, procurar nos jornais por pistas e reunir os fatos para encontrar uma solução.🔎 Cada mistério só é jogado uma vez, mas não se preocupe pois o jogo conta com várias expansões.

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Stefania Niccolini é uma desenvolvedora de jogos de tabuleiro com um portfolio de peso! Ela começou a carreira com o card game African Park (2009) e com o jogo The Dodge Ship (2012). Depois partiu para jogos de tabuleiro mais longos como: ZhanGuo (2014), Rhein: River Trade (2016), Railroad Revolution (2016), The Long Road (2018) e Pirates Under Fire (2019). Isso sem contar as diversas expansões para ZhanGuo e Railroad Revolution.

Com certeza, um jogo que se destaca dentre o portfólio da autora é ZhanGuo. Ele se passa na China durante o império do jovem e ambicioso Qin Ying Zheng entre 230 e 221 a.C. Cada uma das jogadoras assume o papel de emissária do imperador com a missão de unificar o império, construindo a grande muralha, os guerreiros de terracota e outras tantas empreitadas. O jogo se passa em 5 rodadas e é bem apertado.

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Toda quarta-feira aqui na JogaMana falamos sobre as mulheres nos jogos de tabuleiro. Hoje apresentaremos a Connie Kazmaier, coautora do jogo Chai e fundadora da editora canadense Steeped Games.

Chai foi lançado com sucesso via kickstarter, em 2018 e não é só no tema que o jogo é original: ele junta as mecânicas de coleção de componentes (set colection) e seleção de cartas (card drafting) de uma maneira bem bacana.

A incrível arte do jogo foi feita por mulheres (Mary Haasdyk e Sahana VJ ) e a produção foi meticulosa em cada detalhe (arrasta pro lado pra conferir as fotos de tirar o fôlego!) No dia 25 de maio desse ano o jogo entrou em reprint via kickstarter com a nova expansão High Tea. Chai ainda não está disponível no Brasil, mas esperamos ver ele logo por aqui!

Nada será como antes

Encaremos os fatos: na mesa virtual, não estamos jogando boardgames.

Meeple perdida no reino digital

Sabemos que para muitas de nós, pessoas que se identificam com a cena bgamer, jogar é uma parte especialmente relevante da vida social, do lazer, do prazer e da forma de se entender no mundo. Ter uma partida em vista pode ser sinônimo de ter desde uma distração daquelas que mantêm a mente tranquila, até um desafio intelectual inquietante. Em todo caso, algo se impõe: jogar é preciso. Melhor: jogar é desejado!

Assim, em meio aos tantos desafios do momento histórico que estamos atravessando, tem sido comum encontrar, nesse circuito, quem venha se reinventando para manter-se na prática: jogar solo, jogar por meio de sites, jogar com chamadas em vídeo, jogar versões virtuais de seu jogo favorito ou similares. As alternativas não são poucas, e a cada dia parecem se acrescer de novas facilidades para adaptar a rotina ao contexto. Felizmente, funciona para muita gente. Para algumas, é a salvação do hobby. Mas peço licença para comentar que, para mim, senhoras e senhores, no que diz respeito a jogos de mesa, nada será como antes.

Por isso, e com a certeza de que há mais pessoas que, como eu, não encontram – e talvez nem busquem! – peças que substituam a que agora está faltando, compartilho aqui o meu desabafo.

Os sentidos de jogar

Sou uma jogadora dos sentidos. As texturas, os cheiros, as cores e os movimentos delicados do manuseio são parte central do que me conecta aos jogos. Além disso, a proximidade física, a leitura social, a concentração compartilhada, e expressões que só se conhece bem a distâncias menores que as recomendadas para o momento atual.

Observar as jogadas alheias, e até os momentos em que alguém “ameaça” mover uma peça e não move, a luz do ambiente, estar frio ou estar calor, a caixa, abri-la, (des)organizá-la, isso, isso tudo, para mim é muito pra se perder. É tanto, que jogar sem isso chega a ser, no meu entendimento, outra coisa. Outra coisa qualquer, mas não a vivência de jogar um boardgame.

Bacolou com o rosto enfiado na tampa da caixa de um jogo
Quem nunca? Rs! [a caixa é do jogo Fotossíntese, publicado no Brasil pela então editora Mandala]

O meu problema não é tanto a saudade, nem mesmo a perda. A sensação de não poder vivê-las como tais é que pega. Ao jogar pelas vias virtuais, estamos fazendo qualquer outra coisa, talvez algo até mais mágico, mais rico, que talvez muita gente descubra achar até bem mais interessante ou, ao menos, suficientemente parecido. Mas o que aconteceu com todo o discurso de que jogar boardgames é sobre ficar offline? “Longe das telas, perto das pessoas”? Não podemos admitir que vivenciamos, de fato, uma perda, talvez até uma imensa derrota?

Não é qualquer elogio à melancolia, nada disso. O elogio aqui é ao espaço de conexão com o luto. O enfrentamento do real. Peço que não nos levemos a mal se, de repente, aquelas amigas que sempre marcavam presença nas mesas comecem a desfalcá-las um pouquinho. Não é [necessariamente] tristeza, compromissos outros ou o que o valha. Não é nada pessoal. De repente, é só o fato de que não podemos jogar boardgames.

Creio e espero que isso tudo vá passar. Com sorte – e, principalmente, com respeito ao distanciamento social e às medidas protetivas, com, quem sabe, algum lapso de responsabilidade institucional que surja, com mais reivindicações -, em breve. E aí teremos passado um momento difícil, mas poderemos jogar juntas na mesma mesa novamente. Mesmo assim, não será como voltar de viagem, sentar-se e jogar, com as mesmas mãos quentes, com as mesmas mesas curtas, com as mesmas certezas. Nada será como antes. E assumirmos isso pode ser parte importante do processo de reinvenção e construção do que queremos para o futuro, quero crer que um futuro bem melhor.

Há muito para salvar, muito para viver.
A normalidade não está, de fato, entre as prioridades do momento.

Mulheres nos jogos #2

Para quem acompanha a JogaMana no instagram sabe que toda quarta-feira falamos das mulheres nos jogos de tabuleiro! Confira abaixo a segunda parte das desenvolvedoras de jogos que já rolou até agora nas nossas redes sociais. A primeira parte você pode conferir aqui. Bora prestigiar o trabalho incrível da mulherada:

Sabrina do Valle é autora do célebre card game Sereias, lançado pela @potatocatgames. Nele as jogadoras assumem papéis de regentes musicais que devem reunir sereias de vozes diferentes para encantar os navios.

Mas não para por aí! A designer conta com vários outros jogos em seu portfólio, como o Stellarium (o antigo Lunetas, que participou do concurso de protótipos da @precisamentejogos), no qual devemos reconhecer com destreza padrões de belas estrelas; Shodo (feito em conjunto com Andreza Farias) em que cada jogadora é uma aprendiz da arte da escrita japonesa tentando aperfeiçoar suas técnicas. Outros jogos da autora são Taquara-Castelo e Os Moscovis, os quais a própria Sabrina conta pra gente em sua entrevista para a JogaMana aqui!

Além disso, Sabrina é uma das organizadoras do evento Board Game Girls no RJ, que promove uma maior participação das mulheres nos jogos em um ambiente seguro. 💜

Peggy Chassenet é socióloga e trabalhou no mundo dos vídeo games também. Ela é autora do famoso T.I.M.E stories, lançado em 2015, um jogo narrativo e cooperativo que foi premiado como melhor jogo em 2016 na feira de jogos do Reino Unido.

T.I.M.E stories é um jogo de exploração de baralho no qual cada uma de nós assume a identidade de agentes temporais para concluir missões e desvendar enigmas ao longo do jogo.
Cada história só pode ser jogada uma vez, mas não se preocupe, pois já existem várias expansões para serem exploradas!

Karen Seyfarth é autora de Thurn and taxis, lançado em 2006 e vencedor do Spiel des Jahres desse mesmo ano (além de ter ganho muitos outros prêmios e nominações pelo jogo).

Thurn and taxis é o nome de uma família alemã que é considerada a precursora do sistema postal internacional. Nesse jogo, as jogadoras deverão construir rotas de correio pela região da Baviera e coletar pontos bônus de maneiras variadas. O jogo se destaca por sua simplicidade, mas por ser ao mesmo tempo bem estratégico.

Se você ficou curiosa sobre a história dessa antiga família alemã , o blog da @jogadahistorica
Tem um post bem aprofundado sobre esse assunto.

Nina Håkansson é uma das autoras de Nations, um jogo da editora Lautapelit.fi, que ganhou dois prêmios em 2014 (Jogo do ano e o JUG, ambos de Portugal) e foi também indicado para vários outros.

Nations é um jogo de civilização no qual as jogadoras devem desenvolver a melhor nação possível, começando na pré-história ate o início da primeira guerra mundial. Cada nação deverá promover uma economia estável e também construir sua herança cultural para o mundo. Ganha o jogo quem conseguir administrar melhor sua nação para ter a maior quantidade de pontos de vitória no final da partida.

Um ponto interessante para se notar é que muitas vezes os jogos do gênero “civilização” não possuem mulheres em seu repertório histórico (como o The Flow of History que não possui nenhuma mulher dentre as personalidades ou Through the ages, que tem apenas a Joana D’arc como figura histórica no jogo base). Em Nations temos a representação feminina na própria arte do jogo e também aparecem várias figuras femininas históricas como a Cleópatra, a rainha Victoria, a Imperatriz Cixi, dentre outras. É realmente raro esse tipo de presença feminina na narrativa de jogos de civilização.

Marsha J. Falco é autora de uma série de jogos de cartas. Seu jogo mais conhecido é o SET, criado em 1974, enquanto ela trabalhava como geneticista estudando padrões genéticos da epilepsia (um fator importante que refletiu na concepção do seu primeiro jogo, pois SET é um card game de reconhecimento de padrões, no qual as jogadoras tentam identificar simultaneamente conjuntos de cartas). O jogo foi um sucesso em seu lançamento e recebeu diversas premiações. Aqui, no Brasil, SET foi lançado ao longo dos anos por diversas editoras como a @galapagosjogos@devirbrasil e @copagoficial.

Outros jogos criados pela designer são: Quiddler, Five Crowns, Karma, Wordspiel e Xactica. Todos são cardgames simples, mas desafiadores.

Mandy Goddard é coautora dos jogos Lotus (2016), Death Note: confrontation (2018) e Gates of Delirium (2019). A designer começa sua carreira em 2016 com Lotus, que é um belíssimo jogo de cartas ainda pouco conhecido aqui no Brasil. Nesse cardgame, as jogadoras cuidam habilmente de um jardim de flores de Lótus, com ajuda das criaturas nativas da terra, para obter a maior quantidade de pontos de vitória. O jogo foi indicado para o prêmio de melhor arte e apresentação no Golden Geek de 2016.

A autora também criou Gates of Delirium (baseado no universo do Cthulhu) e o jogo de dedução e controle de área para 2 pessoas baseado no Mangá/Anime do Death Note, no qual cada jogadora assume um papel (L e Kira da série) e entram num esquema de perseguição. 

Yu-Shen Tseng é coautora de Burano, lançado em 2015 pela @emperors4games.

Nesse jogo nos encontramos na Idade Média em Burano, uma ilha localizada em Veneza, tentando ser a família mais bem sucedida por meio do comércio de peixe, domínio das oficinas de renda e da construção das icônicas casas coloridas dessa ilha.

Burano é jogado nas quatro estações do ano, em 14 rodadas. O jogo se desenrola por meio das mecânicas de coleção de componentes, controle de área e pick up and deliver (pegar um componente e entregar em algum outro local), mas a engenhosidade do jogo se dá na mecânica da pirâmide de cubos na qual cada jogadora deverá movimentar em sua rodada e ativar certas ações de acordo com a cor do cubo.

Verificamos na ludopedia e, no Brasil, a licença do jogo está com a MeepleBR, mas ainda sem previsão de lançamento.

Jogos no fundo do armário

Gosto de pensar que não é só a minha coleção que tem jogos encostados. Tal qual aquela roupa no fundo do armário que um dia você acha e pensa: “eu deveria usar mais esta peça” ou “eu gosto desta roupa, mas gosto mais de outras” ou “por que eu ainda tenho isto?”. A verdade é que você tem mil outras roupas de que gosta mais e a Marie Kondo certamente diria para você desapegar. E, sendo uma roupa, talvez até o faça. Mas nós sabemos que, com jogo, não é bem assim que funciona. 

Com o advento da quarentena, resolvi tentar jogar todos de minha coleção, começando pelos jogos “blusas no fundo do armário”. Já foram três a saírem da prateleira e, tendo como inspiração a musa japonesa da organização, passei a refletir: esses jogos “spark joy” em mim? 

Situação 1 – Eu deveria jogar mais este jogo

O primeiro da fila foi o Discoveries. Joguinho leve e confortável, mas com um toque de estratégia para não deixar as coisas monótonas. Excelente para apresentar a novas jogadoras. A premissa é: você faz parte da expedição de Lewis e Clark, que atravessou o continente norte-americano no início do século 19 e relataram tudo o que encontraram em diários, descrevendo plantas e animais que descobriram e desenhando os mapas de áreas desconhecidas.

No jogo, devemos enviar nossos expedicionários-dados para coletar essas informações de plantas e animais, negociar com tribos indígenas, trilhar caminhos difíceis. O fator sorte está presente de maneira significativa, já que o papel que cada dado vai desempenhar é relacionado ao lado em que o dado caiu. Porém, existem forma de reverter esses resultados, o que diminui um pouco esse fator sorte e acrescenta estratégia na jogada. 

Destaque para a arte de Vincent Dutrait no jogo, muito bonita e delicada. 

Situação 2 – Eu gosto deste jogo, mas tenho outros de que gosto mais

 Acredito que o Marcos Macri seja um dos designers brasileiros mais criativos que há. Sempre acho as mecânicas e temas de suas criações muito interessantes. Não foi diferente com Chaparral. No jogo de 2016, somos investidoras no velho oeste americano. Nosso objetivo é conquistar fortuna, prestígio e prosperidade. 

Para isso, buscamos personagens que detêm algum tipo de poder na cidade: xerife, prefeito, banqueiro, minerador, operador de trem, dentre outros. Cada personagem visitado vai te permitir alocar influência em determinados locais da cidade como hotel, loja de armas, barbearia, farmácia, armazém, etc. Além disso, cada um tem uma habilidade, então ao visitá-lo você pode executar ações como construir ferrovias, coletar verbas ou vender produtos. Somente um jogador pode ir em cada personagem por rodada, então, se você quiser executar a ação dele e o mesmo já estiver bloqueado, você deve ir no Beco, onde são praticados negócios escusos ao custo de dinheiro e honra. 

Conforme conquistamos influências e riquezas, podemos reivindicar cartas de objetivos, que existem em quantidades limitadas de acordo com a quantidade de jogadores.. Quem primeiro conseguir angariar 7 objetivos ganha o jogo – ou seja, trata-se de uma corrida para conquistar essas cartas antes do adversário.

A questão de Chaparral, para mim, é que ele nem é um jogo leve o suficiente para apresentar a uma novata, mas também não é a melhor opção para jogadores mais experientes. O primeiro jogador acaba tendo muita vantagem em relação aos outros e os personagens não são muito bem balanceados. Alguns são muito importantes e outros só vão ser relevantes em determinadas circunstâncias. A ferrovia, por exemplo,  é algo difícil de ser construído e que, no fim, não dá tanto retorno assim.

Mais um ponto importante: a representação feminina é quase nula. Apenas a Dona do Saloon é mulher. Sabemos que era um ambiente machista, etc, mas poderia ter pelo menos mais uma personagem feminina, não acham?

A Dona do Saloon é a única mulher no jogo

Situação 3 – Por que eu ainda tenho este jogo?

Sabem amigo secreto ladrão? O marido ganhou este joguinho Star Wars Império Vs. Rebelião na famigerada brincadeira de fim de ano e, inicialmente, achamos que até tinha sido uma vantagem. Demoramos 2 anos para ter coragem para testar, afinal, é feio falar mal das coisas sem conhecer antes, certo? Por mais que eu estivesse preparada para não ser exatamente um jogo elaborado, me decepcionou a falta de criatividade nas cartas, nas mecânicas e suas ações. Um card game em que você não tem uma “mão”, você é simplesmente obrigado a jogar a primeira do deck. Enfim, como diria o Michael, de Arrested Development, I don’t know what I expected. Ficamos entediados e não terminamos a partida.

Ainda temos mais jogos “no fundo do armário” e eu volto aqui para contar para vocês. E quais são os seus jogos esquecidos na prateleira?

Nunca só nem má acompanhada! – Tipos de jogos solo

Eu e alguns dos meus maravilhosos companheiros (tenho outros xodós que não estavam comigo na hora da foto): (de cima pra baixo) Escape Plan, Black Angel, Dragon Castle, Wingspan, Shakespeare, Empires of the North, Welcome to…, Cartógrafos

Não é de hoje que sou super fã de jogar sozinha. Antigamente, eu usava muito o baralho para me distrair e continuar jogando mesmo que sem ninguém por perto para embarcar na joga comigo. Foram incontáveis as vezes em que me sentei no chão e preparei minha partida de Paciência (que nunca era uma única partida), o que me rendia uma tarde bem deliciosa comigo fazendo companhia para mim mesma. Hoje em dia, mais mergulhada no mundo dos BoardGames, acabo tendo muito mais acesso aos diversos jogos que proporcionam a nós, amantes de jogos solo, uma versão para continuarmos nos entretendo mesmo que desacompanhadas. Mas afinal de contas, todos estes tantos jogos com versões para 1 player são todos iguais? Jogar sozinha é sempre a mesma experiência não importa o tipo de jogo nem quantas vezes você já o jogou? E para quê vou gastar tempo jogando sozinha? Tem algum benefício em fazer isso?

Vem comigo que eu separei quatro tipos de partida solo que já encontrei por aí toda vez que me aventuro nas versões Automa, e quem sabe eu consiga te mostrar que nem de longe jogar solo é tudo a mesma coisa ou perda de tempo.

BENEFÍCIOS DE JOGAR SOLO

Começarei falando dos benefícios que eu vejo e sinto ao jogar solo. Veja se algum deles faz sentido para você:

  1. Aprender as variantes do jogo e poder ensiná-lo para as amigas com mais segurança e tranquilidade. Imagina acabar essa quarentena dominando um montão de jogo e pronta para ensiná-los para a galera?;
  2. Poder jogar mesmo sem ter alguma companhia na hora que você quer jogar. É você ter liberdade total no seu hobby independente de outras pessoas quererem ou poderem jogar com você;
  3. Matar saudade de algum jogo que faz tempo que não vê mesa (talvez porque teu grupo não curta muito) e você adora jogar!
  4. Ter mais foco no jogo e fugir das distrações ao jogar em grupo: piadinhas ou conversas paralelas, pausas para banheiro ou comer, ficar olhando no celular, etc. Aquelas situações que você certamente já viveu e que podem, por vezes, atrapalhar bastante o desenrolar da partida;
  5. Ser um bom momento de introspecção fazendo algo que gosta de fazer.

Agora que talvez tenha te convencido um pouquinho mais sobre o porquê jogar solo, bora aos principais tipos que eu já joguei!

TIPO 01: VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA

Talvez este seja o estilo mais conhecido. É aquele em que o jogo é tradicionalmente jogado a partir de 2 players e, para que você consiga jogá-lo solo, foi criado um dummy player. Como que funciona? Basicamente, você fica responsável por fazer suas ações e também gerir as ações deste player criado para jogar com você (o que é chamado de manutenção). Muitas vezes, ele vem até com nome – em Troyes, temos o Le Roy; em Black Angel, temos o Hal; Vital Lacerda também adora colocar nomes nos dele, como Lacerda, Sandra; e por aí vai.

Tem também, em muitos casos, a criação de um baralho específico para o modo solo que representa as ações do dummy player, ou como é comumente chamado também: Automa. Curiosidade: Morten Monrad Pedersen é um dos principais autores de modos solos para jogos e fundador da empresa Automa Factory. Incusive, ele fez uma parceria com a Stonemaier Games, por isso que praticamente todos os jogos desta editora tem modo solo, como Wingspan, Viticulture, Charterstone e Scythe.

Baralho criado especialmente para o modo Automa pelo Morten Monrad Pedersen, em Wingspan da Elizabeth Hargrave

A função principal deste dummy player é de bloquear tuas ações e gerar um cenário mais próximo ao jogo tradicional em que você joga com outras pessoas, no qual você precisa ter estratégia para ir melhor que a concorrência. Outro ponto que também é comumente neste tipo de jogo solo é ter uma tabela de classificação no final. Nela, você é classificada a partir da sua pontuação final.

Exemplos de jogos que tem esta mecânica solo: Arquitetos do Reino Ocidental, Troyes, Escape Plan, Black Angel, Lisboa, Dragon Castle, Wingspan.

TIPO 02: O IMPORTANTE É PARTICIPAR

Sabe aqueles jogos em que você não ganha por nada nesse mundo, mas que você se diverte só por ter jogado? E aí você quer jogar mais e mais vezes para tentar vencer pelo menos uma única vez? Digamos que tem um estilo de modo solo que faz isso com a gente. Basicamente, são aqueles jogos em que você pode jogar versus um Automa mas precisa de X pontos para vencer. Sem isso, teus esforços foram rasgados bem ali na tua frente e você simplesmente perde.

O Automa nestes casos, quando presente, serve principalmente para te bloquear, ele não ganha pontos diretamente e você não precisa ser melhor do que ele. Ou seja, ele irá atrasar o teu jogo e complicar tua estratégia, mas teu desafio é bater a pontuação mínima que o jogo exige. Quando não tem Automa (como é o caso do Imperial Settlers – Empires of the North), o jogo não tem cartas adicionais. É você ali dando o seu melhor para conseguir a pontuação mínima.

Ainda neste exemplo (que é, inclusive, um dos jogos solos que mais gosto!), você ainda encontra cenários variados em que há algumas mudanças na regra base do jogo e é simplesmente delicioso sentar, escolher um clã e criar seu império na paz, tendo apenas um limite de rodadas para chegar na pontuação mínima. Não é nada fácil, já aviso. Tem cenários super diferentes e ainda é possível encontrar novos pela internet, mas também não é impossível.

Este jogo é tão bem preprarado para ser jogado solo que vem até com um booklet específico para isso, com diversos cenários e tabela para você organizar sua pontuação! Não é a toa que ele é meu favorito para jogar solo!

Exemplos de jogos que tem esta mecânica solo: Imperial Settlers – Empires of the North, Viticulture, Sagrada

TIPO 03: VOCÊ CONTRA VOCÊ MESMA

Ou como é mais conhecido: beat your own score (tradução livre: bata sua própria pontuação). Nesta mecânica de jogo solo você não encontrará nenhum automa, dummy player, cartas adicionais, nada dessas coisas. Aqui é simplesmente você jogando o jogo sozinha com algumas modificações da regra original (para adaptar ao modo solo) e marcando sua pontuação final. Você dificilmente perde, a não ser que faça algo explícito que te faça perder, mas o gostoso desta mecânica é que você joga e estimula jogar mais vezes para melhorar sua pontuação. Jogos solo assim são ótimos para você aprender melhor as regras de um jogo que ainda não jogou e que quer explicar para as amigas. Ele também é ótimo para você testar novas estratégias e ver quais você faz com mais maestria. Por vezes, o jogo oferece uma tabela de classificação para você saber mais ou menos onde se encontra e o quanto pode melhorar.

Exemplos de jogos que tem esta mecânica solo: O Albergue Sangrento, Empires of the North*, Cartógrafos, Welcome to…

Tabela de pontuação de fim de jogo do Empires of the North (eu logicamente não tive coragem de escrever nela, fiz minha própria e deixo junto).

*Coloquei aqui o Empires of the North novamente porque uma vez que você ganha os pontos suficientes para ganhar, inevitavelmente você fica jogando para evoluir na sua pontuação. Sem contar que com os clãs diferentes você ainda compara a pontuação entre eles.

TIPO 04: FEITOS ESPECIALMENTE PARA VOCÊ

Estes são definitivamente (e infelizmente) os mais difíceis de achar no meio dos BGs. Estou falando daqueles jogos que foram criados para você jogar sozinha mesmo. Ou seja, jogos que são melhores jogados sozinha. Eles nem tem modo solo, eles já são solo. E quando muito, ainda adicionam a possibilidade de jogar com mais uma pessoa, mas só. Eu mesma só tive a oportunidade de jogar dois jogos assim e foram experiências deliciosas. Em jogos criados especialmente para jogar sozinha, você acaba tendo contato com jogos mais trabalhados para este fim e não adaptados, entende? O que ocasiona em uma mecânica efetiva, extremamente funcional e muito fluida. Como disse, eles ainda são poucos no mercado e colocarei aqui como exemplo os dois que tive a oportunidade de jogar. Mas, sabendo de mais opções, não deixe de comentar. Amarei descobrir mais títulos!

Exemplos de jogos que tem esta mecânica solo: Mr. Cabbagehead’s Garden, Onirim

Ah, e uma dica final: tem vários jogos que não falam na caixa que dá para jogar no modo solo. Provavelmente, é porque o modo foi criado depois e é disponibilizado na internet para você fazer download das regras e adaptar ao jogo, que foi o que aconteceu com Troyes e Dragon Castle, por exemplo. O modo solo deles não vem nem nas regras do jogo base, mas é facilmente encontrado em comunidades de BGs, como a BoardGameGeek ou a Ludopedia! Então, não deixe de conferir se teu jogo favorito tem uma versão solo rolando nas redes. Pode ser uma surpresa deliciosa!

Ah (de novo), e lembrando: jogos cooperativos normalmente também te possibilitam jogar sozinha justamente por serem jogos em que nada é escondido entre os participantes e estão todos juntos versus o jogo. De repente, vai que você anima jogar um Pandemic e salvar o mundo sozinha? Ou não deixar o bandido escapar em bandido?

Agora me conta: você gosta de jogar solo? Quais jogos curte mais? E fique à vontade para colocar mais itens nessas listas, coloquei apenas alguns exemplos, mas sei que tem muuuuito mais jogo solo por aí. Que bom e que venham mais! 🙂

Quando o Jogo da Vida encontra o Pandemic

Escrito por Katia Barga

É, parece que o rolar de dados não foi de sorte, ou a carta de Pandemia era uma das primeiras no nosso baralho de eventos…

E um ano que já ia meio conturbado, trouxe um desafio nunca antes vivido nessa escala: uma pandemia.

Inevitavelmente me veio a mente o jogo Pandemic, o mapa mundi e as infecções se alastrando continente a continente. Cubinhos se multiplicando rapidamente pelo tabuleiro… respira, mas longe dos outros.

Com isso veio o isolamento, que sem alguma atividade pra ocupar a mente, vai transformando precaução em paranóia. E quem tem pequenos em casa? Escolas fechadas costumam gerar, digamos, uma certa ansiedade nos pais 🙂

Isso me lembrou essas sugestões para férias que escrevi em 2019: E que venham as férias. Podia ser um ponto de partida… mas dessa vez eu gostaria de ir um pouco além e oferecer opções pra quem não está preparado com uma coleção para o período, ou que no melhor estilo apocalipse zumbi, terá que se virar com impressora, lápis e papel ou um baralho comum.

Se você tiver uma criança maior, de uns 9, 10 anos, pode até começar com Pandemic mesmo e aproveitar pra conversar um pouco sobre o que está acontecendo. As crianças também tem sido muito bombardeadas com informações sobre a Pandemia e muitas estão ansiosas e assustadas. Minha pequena de quase 6 tem achado tudo divertido na verdade, e disse que vai achar legal fazer as atividades da escola em casa (quero ver até quando) já a mais velha, de 12 anos, começou com uma tosse e já ficou apavorada.

O tempo todo recebo comentários de quem lê os meus textos sobre como não consegue jogar com as crianças, que elas não se concentram, que não tem paciência… e em tempos de telas na palma da mão e imediatismo de respostas, isso não é de se espantar. Mas o que posso dizer é que é um processo, e se você nunca fizer isso de sentar com os pequenos e apresentar jogos bem simples de inicio, com pacência pras levantadas, distraídas, propostas de uso de componentes pra outras finalidades, eles vão demorar bastante a pegar o espírito da coisa. No início, quando minha filha menor tinha pouco mais de 3 anos e comecei a apresentar jogos, passei por tudo isso com ela, mas hoje com quase 6 anos, joga muita coisa, Kingdomino, Sereias, Patchwork. Hive, Parade, e temos reservado uma horinha ou pelo menos algum momento juntas para jogar praticamente todos os dias.

Se você tem uma coleção de jogos já,  pode começar pelos favoritos e aos poucos você poderá ir apresentando aqueles que você também gosta mais, mesmo que tenha que simplificar algumas regras ou terminar uma partida bem antes.

Muitas lojas ainda estão vendendo jogos para entrega, então, tomando os devidos cuidados na hora de receber a encomenda, pode ser uma boa opção acrescentar alguma novidade.

Mas caso não seja também o momento de de gastar os recursos que podem estar contados, afinal o importante é saber alocar os recursos, não é? Uma boa opção pode ser procurar algum jogo print and play, isso claro se você ainda tiver tinta e papel pra sua impressora.

Testei um jogo bem divertido com as meninas chamado Candy Craze, ganhador do prêmio de primeiro lugar num concurso de jogos print and play de 2018 (The Roll and Write Global Jam) aqui adoramos coisas com temas de Halloween então esse veio bem a calhar, como as instruções estão em inglês, embora seja simples, tive que ler algumas vezes para entender realmente, gravei um pequeno vídeo das instruções para facilitar (clique pra ver o vídeo). Basicamente vocês são crianças andando pela rua e coletando doces cada um com a sua cestinha em forma de abóbora, na qual de acordo com o número sorteado no dado que representa cada doce indicará a posição onde você vai encaixar o doce escolhido, pode parecer muito simples, mas os doces têm tamanhos diferentes e pontuações diferentes o que acaba tornando a escolha não tão simples como parece inicialmente. De cara jogamos duas vezes seguidas e as meninas adoraram jogo. Mas é igualmente divertido para adultos. Vou deixar links de algumas opções de print em play no final do post, que tem jogos para crianças também. No Caso do Candy Craze além da impressão, você precisará de 5 dados, de preferência de cores diferentes, caso não tenha, existem vários apps com dados vituais, como esse, por exemplo: https://play.google.com/store/apps/details?id=net.kosev.dicing

Mas e se a tinta e papel da impressora acabar, o que fazer? Pode ser um momento para relembrar alguns jogos da infância em que só  precisava de um lápis e papel. 

Crianças que estão começando a ler podem se divertir jogando Forca com palavras simples, a minha Alice joga sempre com o pai e hoje em dia ela adora,  joga até de cabeça sem precisar nem de lápis e papel. Se já estiver bem firme na leitura, que tal apresentar o superclássico STOP? (que só recentemente descobri que em alguns lugares se chama Adedonha!) Nesse jogo fazemos colunas com várias categorias, por exemplo: animal, filme, fruta, carro e por aí vai, sorteia-se uma letra e em cada coluna é preenchido um item da categoria começando com a letra escolhida. Pura nostalgia.

Lembrei essa semana de um joguinho muito simples que tenho vontade de apresentar para as meninas: uma disputa de fazer quadradinhos ligando pontinhos, que ao serem fechados você coloca sua letra dentro.Cada um faz um traço e tenta fechar mais, se ao colocar o traço fechar um quadradinho você coloca sua letra dentro. Quem fechar mais quadradinhos ganha. Eu não tenho a menor ideia de como chama, mas vou colocar uma foto ao lado tenho certeza que muita gente vai lembrar dele.

E se você foi pego totalmente desprevenido nessa, muito provavelmente pelo menos um baralho você tem. Sinceramente não sei nada de jogos de baralho, nunca joguei truco, não entendo nada de buraco, canastra ou seja o que for, no máximo joguei 21. Mas criança adora jogos de tapão, e com um baralho comum dá pra fazer fácil um jogo assim. Basta dividir o baralho igualmente entre os jogadores e cada um coloca uma carta formando uma pilha no meio falando um número na sequência, quando o número bater com a carta que foi colocada, é hora do tapão. Quem pegar todas as cartas é o vencedor. Você pode ou não usar as cartas de  K J e Q, geralmente eu usava como número 10. Como tem mais, o 10 quando chega acaba gerando batidas erradas, o que é bem engraçado. O As conta como 1. Enquanto você não tem o ótimo Taco, Gato, Cabra… da Papergames, pode quebrar o galho dando uns tapas num baralho 🙂 especialmente se andar precisando descarregar o estress nessa Corontena.

#fiqueseguro

#fiqueemcasa

Mais alguns links para testar jogos Print ad Play:

https://sites.google.com/view/rollandwriteglobaljam/home/results-and-downloads

Jelly Bean Games – Print & Play

Sobre dados e cuidados para a saúde do hobby

Em tempos em que pandemia deixa de ser só tema de jogo, não podemos deixar de compreender como nossas práticas podem se relacionar com o enfrentamento desse difícil período. Por isso, resolvi compilar e comentar alguns pontos de relação entre o mundo dos jogos e o momento histórico que estamos vivendo, com breves reflexões sobre como podemos responder a algumas situações nesse contexto. Bora pensar juntas?

A mana Bacolou segurando uma carta onde se lê "Epidemia"
Pandemia é assunto sério

Cartas na mesa

Sejamos honestas: o momento é catastrófico e nada menos que isso. É preciso, sim, preocupação e alerta, mas também resiliência e calma para atravessá-lo. Então, enquanto bgamers, vemos entrar em jogo a possibilidade de nos unirmos como nicho cultural, e acionarmos o que o hobby traz de melhor para fortalecer pessoas, relações, soluções criativas, com as quais conseguimos criar verdadeiras redes de apoio. 

A primeira atitude que podemos tomar é ficar em casa e fortalecer a campanha para que todas e todos que puderem, também fiquem. A recomendação é mundial e deve ser entendida como um direito. 

Sabemos que, ainda assim, muitas pessoas infelizmente estão sendo privadas dessa medida e outras, ainda, simplesmente não podem tomá-la, por trabalharem em serviços essenciais ou mesmo por falta de acesso. No entanto, se o seu caso não for nenhum desses, seguir a recomendação já será de grande ajuda, até para a proteção dessas pessoas, que seguem “nas ruas”! Já pensou sobre o impacto que uma exceção pode ter? Mesmo que não se preocupe com o risco à própria saúde, não há desculpas para estendê-lo a outras pessoas, já que você pode estar com a doença de forma assintomática.

Como bgamers, temos boas ferramentas à mão, que podem nos ajudar a lidar melhor com o isolamento recomendado. Que tal experimentar um jogo solo? Ou chamar azamiga pra joga virtual? Às vezes, rola até se descobrir em outras ramificações do hobby, como a confecção de utensílios para jogos, a pintura de miniaturas ou – uma das mais acessíveis e a minha favorita – a leitura de conteúdo sobre o assunto. 

Aproveite e conte pra a gente seus aprendizados com essas experiências!

Higienização de peças
Componentes do jogo temático “Pandemia”, publicado no Brasil pela editora Devir

 

Meeples saudáveis

É bom lembrar que não é só a vontade de conhecer novos jogos que pode espalhar boca a boca, e se difundir pelo hobby que nós tanto amamos. Compartilhar a mesa, lidar constantemente com componentes que passam de mão em mão, e eventualmente até dividir copos e petiscos, enquanto, é claro, conversamos a curtas distâncias – pelo menos para relatar e explicar jogadas -, são coisas do dia-a-dia pra quem joga boardgames. 

Na alternativa virtual esses gestos já não apresentam riscos. Mas, se você está acompanhada nessa quarentena e vai jogar com sua(s) companhia(s), que tal adotar alguns hábitos saudáveis daqui para a frente? Evitar levar as mãos ao rosto durante a joga, por exemplo, pode ser uma boa pedida. Além de proteger você e o resto da mesa, fica mais agradável jogar com componentes livres de baba e outros fluidos corporais xD

Lavar as mãos antes e após a joga também é massa! Um jogo pode até ser limpinho e bem cuidado, mas durante a partida você e a mesa podem ter compartilhado mais do que aquilo que é visível, manuseando os mesmos componentes por algumas horas…

Essas não são sugestões contrárias ao contato corporal na vida: a proximidade é saudável e pode participar muito bem das relações que temos com as pessoas queridas. Mas, compreendendo melhor como as coisas acontecem nos nossos corpos, esse contato pode ser exercido de maneira mais segura, consciente e prazerosa.

A medida de cobrir espirros e tosses com o braço, por exemplo, e manter uma distância razoável ao conversar, podem deixar todo mundo não apenas mais protegido, mas também mais confortável. 😉

Quanto aos tão queridos abraços e beijos, esses em breve poderão voltar à mesa, quanto antes tomarmos atitudes conscientes das necessidades específicas do contexto momentâneo. 

Novamente os componentes, no dice tray cofneccionado pela mana @adrilhama

Dados manipulados

Por falar em consciência, é impressionante como as fake news seguem com força em torno de um tema tão sério, e ainda atingem os mais diversos grupos sociais, mesmo os que têm pleno acesso aos meios de verificação.

Ao receber ou encontrar informações por aí, a medida preventiva é uma só: verificar as fontes. Não é porque o nome de uma instituição está escrito junto a uma mensagem de whatsapp que ela é legítima. Também não é porque o vizinho tem um tio médico, que tudo o que ele envia está bem embasado.

Muitas vezes, pensamos na legitimidade de informações como uma questão de confiança ou não na pessoa que traz a informação até nós. Mas não se trata disso! Todo mundo se engana, às vezes, e não há problema algum em alertar uma amiga ou um parente sobre o caráter duvidoso de uma notícia. Na verdade, tocar nesse assunto com carinho pode ser uma ótima jogada!

 

Economia em jogo

Outro assunto a observar com atenção no hobby são as discussões sobre os impactos da pandemia ao mercado de jogos. Quem não ouviu alguém falar que “a economia” pode chegar a sofrer mais com o isolamento, que as pessoas com a doença? Discursos como esse, de extremo descaso com a vida e os direitos humanos, têm demonstrado também, muitas vezes, desconhecimento sobre como funcionam ciclos de consumo. Noutros casos, com domínio desses ciclos, vemos organizações assumindo uma constrangedora corrida de interesses, atropelando iniciativas locais e desconsiderando a comunidade bgamer – numa aposta autocentrada em talvez migrar para um mercado maior. O ramo dos brinquedos, quem sabe? 

Mas são os pequenos que fazem e sustentam o hobby como o conhecemos, que será destruído se seguir a lógica industrial e de massas.

Felizmente, há exemplos mais inteligentes por aí: editoras e lojas locais, e grupos independentes se apóiam para pagar contas, sim, mas muito antes disso para acolher seus pares de hobby, apoiar a medida de isolamento e disponibilizar alternativas mais construtivas para chegar bem ao fim da partida, em conjunto.

Para quem empreende localmente, há dificuldades no lançamento de produtos, na entrega, para a adaptação e monetização de versões online e para segurar contas até daqui a alguns meses. Nesse sentido, a infraestrutura pode ser um dos pesos centrais, de aluguéis a manutenção e armazenamento, e a remuneração total de quem trabalha nas bases – faxina, caixa, transporte e vendas – deve ser prioridade total! 

Mas, afinal, com o que nós – jogadoras, leitoras, blogueiras, artistas e curiosas do ramo – temos a cooperar nesse sentido?

O consumo direto é o que vem sustentando essas pequenas empresas, em que certamente a presença de jogadoras(es) nutre parte relevante das receitas. Mas, além de comprar online – e, aliás, além de comprar, somente -, será que não há maneiras de ajudar a cuidar da saúde do hobby?

Parcerias para transporte, campanhas publicitárias para lançamentos futuros e mobilizações diretas, que vão desde compras coletivas e vaquinhas até solicitações de apoio de empresas maiores, podem entrar no deck. Editoras podem colaborar com lojas, e lojas com consumidoras(es). Lojas podem dar uma contrapartida às editoras, fazendo desde trabalhos de divulgação até negociações de diluição de contas, de modo a prevenir dívidas sem interferências relevantes em valores brutos. 

Nós, público consumidor, podemos indicar nosso hobby querido a pessoas que ainda não o conhecem, mas que estão de quarentena com as famílias, e podem representar, pouquinho a pouquinho, um crescimento progressivo na demanda por jogos.

Ditas todas essas jogadas, não posso deixar de levantar uma questão: será que não é hora de repensarmos a lógica econômica atual, em si?

Nem só de consumo mercantil se faz um hobby. Na verdade, temos muito a criar, compartilhar e experimentar fora das interações financeiras. Vale lembrar que as únicas peças realmente indispensáveis para jogar não são as de plástico, papel ou madeira.